
Durante a exposição Vinos y Bodegas Cosecha 2009, realizada nos dias 8, 9 e 10 de Setembro na Sociedad Rural Argentina em Palermo, Buenos Aires, visitamos o amplo stand da Asociación Argentina de Sommeliers (AAS). No espaço arrumaram-se três salas de recepção, onde a cada 30 ou 40 minutos os sommeliers dirigiam breves conferências de Introdução a Degustação, com os vinhos que providenciaram as vinícolas participantes no evento como apoio ao trabalho da Associação. O público seguia com entusiasmo a atividade, sinal visível de que o interesse pela sommellerie segue crescendo.
Em este entorno, Bodegas del Uruguay foi recebida por Andrés Rosberg, Presidente da Associação, quem respondeu nossas perguntas assim:
Quantas escolas de sommellerie existem na Argentina?
Na AAS reconhecemos e abalamos as escolas que cumprem com os quesitos estabelecidos pela Associação de Sommellerie Internacional (ASI), que agrupa mais de quarenta associações nacionais de sommeliers do mundo inteiro e da que somos membros desde o ano 2002. Neste momento, em nosso país há quatro instituições que observam esses quesitos: A Escuela Argentina de Sommeliers (EAS), a Escuela Argentina de Vinos (EAV), o Centro Argentino de Vinos y Espirituosas (CAVE), e o Instituto L' Ecole, de Mar del Plata, e estamos trabalhando para incorporar algumas outras instituições do interior do país, sempre com o objetivo de que nossos profissionais tenham uma maior e melhor formação.
Quantos associados possui atualmente a Associação?
Atualmente possui perto de 250 associados e o número segue crescendo. A maioria são sommeliers, embora também contamos com um pequeno número de associados aderentes e estudantes.
Qual é a atividade específica da Associação?
Nossa maior tarefa é congregar os sommeliers de nosso país, e promover a somellerie argentina. Isto se expressa em diversos âmbitos, como explicar aos consumidores o que é um sommelier, demonstrar aos restaurantes que contratar um sommelier é uma inversão e não um gasto, difundir a profissão, gerar redes de maneira que os sommeliers estejam conectados entre eles, fomentar a melhora contínua de nossos profissionais, ser o interlocutor da categoria ante os setores vitivinícola e gastronômico de nosso país, e representar a somellerie argentina nos âmbitos da sommellerie internacional, entre outros.
As vinícolas utilizam os serviços dos sommeliers?
Sim, cada vez mais. São contratados para trabalhar no setor de turismo das vinícolas, para treinar sua força de vendas e aos garçons dos restaurantes que adquirem seus vinhos, para degustações com consumidores, ou para formar parte de seu setor de marketing e vendas, só para listar alguns exemplos.
E os restaurantes?
Também, cada vez mais. Mesmo quando sabemos que todavia há muito a fazer, hoje na Argentina há mais de 50 sommeliers trabalhando em restaurantes e hotéis quando há dez anos sobravam os dedos de uma mão para contá-los. Atualmente, os hotéis cinco estrelas quase todos contam com os serviços de algum sommelier, e uns poucos tem mais de um. O número, por sorte, está crescendo e estamos vendo com alegria que o fenômeno não só se dá em Buenos Aires, mas também expande-se pelo interior do país.
Os sommeliers viajam para o exterior?
É verdade que os sommeliers estamos sujeitos aos vaivéns da política e a economia locais, e às vezes é complicado viajar às regiões produtoras por razões de custos, porque a taxa de cambio não e muito favorável atualmente para a moeda argentina, etc.. Porém, a maior parte dos sommeliers encontra o jeito de viajar e de degustar vinhos, é comovedora a paixão de muitos sommeliers da nossa agrupação pelo vinho, que faz muitos deles usar suas poupanças pessoais e as férias para viajar às regiões produtoras, degustar vinhos de outras latitudes, e acrescentar sua formação profissional.
E a Associação como órgão, sai ao exterior?
Representar à Argentina no exterior, colaborar com os organismos de promoção do vinho argentino, dar a nossos profissionais o maior apoio possível em seu desenvolvimento e exposição internacional, e aumentar a integração regional no continente americano são algumas das políticas inamovíveis da organização. A AAS pertence à ASI desde o ano 2002, e aí assistimos a assembléias anuais uma ou dois vezes ao ano, em diferentes países do mundo. Cada três anos também apresentamos um ou uma postulante no concurso Melhor Sommelier do Mundo, para participar na competição e ter acesso à elite internacional da sommellerie, o que também contribui a que nossa sommellerie seja cada vez mais competitiva. Dois anos atrás fomos co-fundadores da Aliança Pan-americana de Sommeliers (APAS) junto às associações nacionais de Venezuela, Canadá, Brasil, México e Chile, onde também há pouco incorporou-se Perú. Isto está gerando reuniões no nível pan-americano. Também fizemos degustações de vinhos chilenos em Argentina, e de vinhos argentinos em Chile, só para por um exemplo da integração regional. Há um par de meses organizamos a Primeira Competição APAS - ASI Melhor Sommelier das Américas - Argentina 2009, que foi uma festa da sommellerie, atraindo concorrentes de oito países e mais de sessenta delegados e jornalistas do mundo inteiro. O mundo está cada vez mais interconectado, e se quisermos insertar-nos temos que compreender essa lógica e trabalhar de uma maneira articulada.
Você conhece o trabalho dos sommeliers no Uruguai?
Não só conheço, mas desde alguns anos estou contribuindo com a formação de vários deles. Sou professor do curso de sommellerie da Faculdade de Química da Universidade da República em Montevidéu, e cruzo o Rio de la Plata várias vezes ao ano, já que desde há tempo colaboro quando é preciso com Titina Núñez, Isabel Mazzuchelli e Estela de Frutos. Há outra instituição onde se pode estudar para sommelier no Uruguai, a Academia do Gato Dumas, alí o director do curso é Gastón Figún, um velho amigo e colega que se formou na Argentina e é membro de AAS. Além disso, ele e eu estamos em contacto com o novo presidente da Asociación Uruguaya de Sommeliers Profesionales (AUSP), o sommelier Ángel Inelte Pereyra Borches, para colaborar com o desenvolvimento da profissão no Uruguai. Estou convencido de que podemos fazer muitas cosas para nossa profissão trabalhando em equipe e articuladamente em ambas ribeiras do Rio de la Plata, especialmente com o crescente interesse que existe no Uruguai pela profissão, tanto dos profissionais como do resto da indústria.

Então incorporou-se à conversa José Luis Lanzarini, Presidente do Fondo Vitivinícola de Mendoza, e disse: "Alianças que potenciam os vinhos do Novo Mundo, essa é a realidade. Hoje o mercado quer isso, a diferenciação dentro do leque de produtos existentes. Uruguai e Argentina não são concorrentes, aliás, eles se potenciam."
A indústria vitivinícola acompanha o crescimento e desenvolvimento da atividade no Uruguai?
Acho que o interesse do setor está crescendo. As vinícolas estão começando a entender os benefícios que traz ter uma sommellerie pujante e estão começando a proporcionar cada vez mais apoio. Claro que, contudo, esse processo deve continuar, e seria benéfico que tanto as vinícolas como as organizações relacionadas com a promoção do vinho uruguaio se envolvam e dêem mais apoio para esta nova profissão. Isto também vale para os restaurantes e outros setores como o das águas, as infusões, as outras bebidas alcoólicas, etc. O crescimento e profissionalização da sommellerie só podem contribuir ao desenvolvimento da gastronomia e a vitivinicultura em Uruguai.
Os formados na sommellerie tem oportunidades de trabalho? Onde?
O crescimento da gastronomia é visível. Estive no novo restaurante do Teatro Solís, que possui uma adega fantástica, e teve a alegria e o honor de ser atendido por dois de meus ex-alunos. Mas não é só nos restaurantes onde se desenvolve nossa profissão: também há sommeliers trabalhando em lojas, distribuidoras, docência, salões de vinho, vinícolas, etc. É verdade que ainda há muito a fazer, mas acho que estamos caminhando no rumo correto.
Qual seria a complementação desejável entre os sommeliers uruguaios e os argentinos?
É evidente que, quanto mais integrados estejamos, maiores são as possibilidades e o potencial de desenvolvimento. Como diz o proverbio, a união faz a força, e esta é a premissa que dá motivação à AAS. Atualmente estamos trabalhando para lograr o ingresso da AUSP na APAS, e depois, na ASI.
Quais serão os próximos eventos onde participará a AAS na região?
Em Novembro se realizará o primeiro concurso Melhor Sommelier da Ásia e Oceania e uma Assembléia Anual da ASI em Osaka, Japão, onde estamos planejando assistir. Devemos ter uma assembléia da APAS antes do fim de ano, e agora estamos avaliando se outros associados na APAS irão para Japão, vendo se é possível fazer a reunião lá, ou deveremos procurar outra alternativa. Em Abril de 2010, também haverá dois acontecimentos de muita relevância: entre os dias 10 e 16, o Concurso Melhor Sommelier do Mundo em Chile, e no fim do mês e graças a um acordo entre a AAS e a Court of Master Sommeliers, esta última terá na Argentina sua base para América do Sul, aqueles interessados em formar-se como Master Sommeliers em nossos países poderão tomar os dois primeiros exames (do total de quatro) na cidade de Buenos Aires, sem necessidade de viajar aos Estados Unidos ou a Inglaterra.
Finalmente, quais são seus desejos e expectativas pessoais como Presidente da AAS?
Tenho uma dívida enorme com a profissão, e meu desejo e devolver algo de tudo o que me deu. Estamos construindo uma AAS dinâmica, forte, que aporte seu grau de areia ao crescimento da gastronomia e o vinho argentinos, ao desenvolvimento da sommellerie na região, e, principalmente, que outorgue um marco de contenção e suporte para que os sommeliers de nosso país possam viver melhor, sejam os melhores embaixadores de nossos vinhos, e desenvolvam todo seu potencial. Podem-se atingir logros muito positivos se trabalhamos coordenados e intensamente. E esto último é válido também para o Uruguai...
Andrés Rosberg é sommelier da primeira turma de egressados da Escola Argentina de Sommeliers em 2000 e co-fundador desta Associação no ano 2001. Foi sommelier do reconhecido Gran Bar Danzón e do restaurante Villa Hípica, onde obteve um Award of Excellence da revista Wine Spectator -o primeiro no país- por seu programa de vinhos. É diretor do Fórum do Vinho desde 2001, e de Cavas del Sur -a primeira loja de leiloes de vinho da Argentina- desde 2004. Responsável da área de enocultura de Slow Food na Argentina, e além disso docente do curso de Sommellerie da Universidade da República no Uruguai, e membro de paneis de degustação em várias guias e concorrências. Colunista da revista Cuisine & Vins, e colaborador na mídia nacional e internacional. Realiza consultoria -para Argentina Luxury Tours e Pannotia Vineyards (dos Estados Unidos), entre outros- e a organização de eventos gastronômicos através da consultora Myriad- The Wine Pros da que foi o criador e é diretor.
